Era, já, manhã do grande dia. Pensou em comprar o terno numa loja próxima ao hotel em que estava; sabendo - no entanto - que era o último dia que veria e viveria, optou por ir a uma alfaiataria renomada. O custo não seria pouco. Não faria diferença. Ainda havia outra coisa, não tinha para quem deixar dinheiro. A última vestimenta, que fosse de qualidade. Saiu para outro bairro da grande cidade em seu Golf. Para evitar problemas carregava consigo a carta - de despedida.
Durante o trajeto há uma chuva, que não dura até a chagada. Foi o bastante para deixar as ruas molhadas. Passou pelo seu destino, mas, teve que estacionar alguns quarteirões depois, essas cidades grandes...
Finalmente encontra sua vaga. Aparece um flanelinha sentindo-se o dono do pedaço:
- Pra parar o carro aqui tem que pagar, chefia! Vinte pila!
O parasita das ruas fica feliz ao receber nota de cinquenta enquanto o projeto de cadáver segue rumo à loja. Caminha um pouco. Faltava, agora, apenas uma avenida e estaria lá. Teve a sensação de de que aquele local seria um marco em sua vida. Estava absolutamente correto!
O sinal fecha para os carros e - enfim - atravessa a rua. Sua ansiedade era tamanha que as passadas de sua corrida foram tão intensas que a carta cai de seu bolso. Não percebeu. Entrou na loja. O tratamento que recebera foi extremamente atencioso. Um jovem de boa aparência e bem educado responsabilizou-se por atendê-lo. Foram-lhe oferecidas as mais variadas comidas e bebidas, aceitou apenas um velho whisky dezoito anos vindo da Escócia.
Tivesse um desenvolvido senso de humor, poderia escolher um terno marrom ou de outro tom que lembrasse madeira. Escolheu o tradicional preto. Os sapatos pretos de couro oriundo de algum lugar da Europa, coisas sobre as quais se diria “é chique!”. A gravata era de um cinza claro vulgar. Suas roupas eram tão monótonas quanto sua existência.
Olhou-se diante do espelho e gostou de ver tamanha elegância. Que não se confunda elegância com graça ou beleza, eram vestes apenas elegantes. Gostou tanto que preferiu sair já vestido com a roupa do espetáculo.
Em meio àquela admiração tola à própria elegância não percebeu que havia perdido a carta há algumas horas - tanto que a carta desfez-se após um tempo junto à rua molhada. Estava novamente diante daquela avenida que mudaria seu destino.