sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Suicida Inepto - Parte I

Que não se ponham sob juízo seu motivos e suas desculpas, não sentia vontade alguma de enfrentar a vida. Tinha - no entanto - um desejo tão morbidamente sórdido quanto sordidamente mórbido. Queria que seu fim fosse marcante, a intenção era causar choque enquanto atraia as atenções para si: escândalos, manchetes de jornais... Queria sair da vida sob olhares que não fora capaz de atrair enquanto dentro dela!
Não se julgam seus méritos, assim como seus deméritos. Contudo, uma breve discrição não deprecia o valor dos fatos. Não via parente algum há anos. Odiava sua família. Após a morte de seu pai mudou-se para um vilarejo litorâneo num fim de mundo qualquer. Talvez, fosse o caso dizer que o nascer do sol à beira mar - com um amarelo intenso brilhando a medida que sobe sobre e é refletido como se fosse gema de ovo flutuando sobre as águas - era o cenário em que o homem se via despertar. Seria o caso se ele visse algo além da venda cheia de prateleiras empoeiradas que visitava mensalmente e do que estava dentro de sua casa. Nem mesmo a janela tinha hábito de abrir.
Entre suas posses, poucas tinham valor sentimental - se é que a palavra se aplica ao homem. Uma gaita de boca - cuja compra foi resultado de um impulso e para a qual mostrara ser total inepto, uma coleção de livros, um computador... Tinha, também, diários em que relatava a busca em que estava. Não podia relatar sua vida, a busca ocupava demais, não sobrava para viver. Não sei por quanto tempo o homem mantinha seus planos. Era - disso sei e fala - tudo em que empenhava esforços e dedicação.

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