Que não se ponham sob juízo seu motivos e suas desculpas, não sentia vontade alguma de enfrentar a vida. Tinha - no entanto - um desejo tão morbidamente sórdido quanto sordidamente mórbido. Queria que seu fim fosse marcante, a intenção era causar choque enquanto atraia as atenções para si: escândalos, manchetes de jornais... Queria sair da vida sob olhares que não fora capaz de atrair enquanto dentro dela!
Não se julgam seus méritos, assim como seus deméritos. Contudo, uma breve discrição não deprecia o valor dos fatos. Não via parente algum há anos. Odiava sua família. Após a morte de seu pai mudou-se para um vilarejo litorâneo num fim de mundo qualquer. Talvez, fosse o caso dizer que o nascer do sol à beira mar - com um amarelo intenso brilhando a medida que sobe sobre e é refletido como se fosse gema de ovo flutuando sobre as águas - era o cenário em que o homem se via despertar. Seria o caso se ele visse algo além da venda cheia de prateleiras empoeiradas que visitava mensalmente e do que estava dentro de sua casa. Nem mesmo a janela tinha hábito de abrir.
Entre suas posses, poucas tinham valor sentimental - se é que a palavra se aplica ao homem. Uma gaita de boca - cuja compra foi resultado de um impulso e para a qual mostrara ser total inepto, uma coleção de livros, um computador... Tinha, também, diários em que relatava a busca em que estava. Não podia relatar sua vida, a busca ocupava demais, não sobrava para viver. Não sei por quanto tempo o homem mantinha seus planos. Era - disso sei e fala - tudo em que empenhava esforços e dedicação.
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Pensou em cortar os pulsos, embriagar-se em veneno, promover uma grande chacina em local público, até jogar-se de monumento turístico. Sabia, contudo, que esses meios seriam inefetivos. Possuía covardia superior a quaisquer padrões. Não teria coragem. Não assim. Superava até a dedicação incondicional - ou quase - a seus planos.
Passava grande parte de seu tempo no computador a pesquisar e indagar-se acerca de tantas maneiras possíveis. Raramente falava com alguém, por telefone - em suas encomendas de livros, comida e artefatos das mais estranhas utilidades. Embora suas pesquisas fossem lentas, já havia decidido o meio de vencer a própria covardia. Um tiro em sua testa. Nada de excessos de sangue, nada de grandes deformações e não era preciso de coragem. Puxar o gatilho. Era apertar e não ter mesmo o tempo para hesitar.
Agora, como chamar atenção? Queria todos vendo. Não sabia o que TODOS representava. Não se importava com as pessoas e suas opiniões? Era apenas uma mascara? Enfim, não sabia de muito. Só queria que todos vissem: TV, internet, rádio... Não, queria morrer ao som do que gostava: jazz.
Procurou por alguma banda que fosse apresentar-se num teatro grandioso. Suas buscas levaram a uma big band que apresentar-se-ia numa das capitais mais badaladas do país.
Faltava mais de uma semana para a apresentação. Era perfeito. No teatro esperava-se por mais de quinhentas pessoas - tirando-se da conta os jornalistas e músicos. Queria ser a estrela da noite. Encerrar o show. O som do jazz trocado pelo silêncio. Depois por espanto. Para encerrar, nada mais adequado que uma marcha fúnebre. Nada mais contrário à vida. Nada mais exótico.
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Munição em sua arma. Comida. Seu plano estava escrito em detalhes. Arrumou tudo que julgava necessário para os três dias de viagem em seu Golf que comprara novo há poucos anos. Partiu da pequena cidade litorânea cinco dias antes do grande espetáculo, ou seja, sobrar-lhe-iam dois dias na capital. O trajeto foi mais tranquilo do que poder-se-ia esperar. Chegou a seu destino geográfico dentro do cronograma.
Ocorreu-lhe que não tinha o figurino adequado para seu grande show e também não tinha escrito a carta de despedida - uma parte do verdadeiro ritual em que transformaram um simples suicídio. Dois dias e duas necessidades.
Iniciou pelo mais complicado, escrever a carta de despedida. Pensava em seus motivos, em tudo que vivera e em tudo que lhe parecia apenas amargura. Acho por bem destiná-la ao mundo, a todas as pessoas. Não queria nem achava necessário fazer menção a alguém em especial. Começou a escrever. A carta possuía tom mórbido e genérico. Secou ao escrevê-la. Lágrimas não caiam, jorravam mais rápido que conseguia escrever linhas. Não se sabe quantas páginas de choro. Mas, de carta não havia mais de três quartos. Todo o dia e tanto esforço e dor para não mais de vinte linhas. O único motivo que tinha para deitar-se aliviado era a ausência de qualquer atraso em seu cronograma.
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Era, já, manhã do grande dia. Pensou em comprar o terno numa loja próxima ao hotel em que estava; sabendo - no entanto - que era o último dia que veria e viveria, optou por ir a uma alfaiataria renomada. O custo não seria pouco. Não faria diferença. Ainda havia outra coisa, não tinha para quem deixar dinheiro. A última vestimenta, que fosse de qualidade. Saiu para outro bairro da grande cidade em seu Golf. Para evitar problemas carregava consigo a carta - de despedida.
Durante o trajeto há uma chuva, que não dura até a chegada. Foi o bastante para deixar as ruas molhadas. Passou pelo seu destino, mas, teve que estacionar alguns quarteirões depois, essas cidades grandes...
Finalmente encontra sua vaga. Aparece um flanelinha sentindo-se o dono do pedaço:
- Pra parar o carro aqui tem que pagar, chefia! Vinte pila!
O parasita das ruas fica feliz ao receber nota de cinquenta enquanto o projeto de cadáver segue rumo à loja. Caminha um pouco. Faltava, agora, apenas uma avenida e estaria lá. Teve a sensação de de que aquele local seria um marco em sua vida. Estava absolutamente correto!
O sinal fecha para os carros e - enfim - atravessa a rua. Sua ansiedade era tamanha que as passadas de sua corrida foram tão intensas que a carta cai de seu bolso. Não percebeu. Entrou na loja. O tratamento que recebera foi extremamente atencioso. Um jovem de boa aparência e bem educado responsabilizou-se por atendê-lo. Foram-lhe oferecidas as mais variadas comidas e bebidas, aceitou apenas um velho whisky dezoito anos vindo da Escócia.
Tivesse um desenvolvido senso de humor, poderia escolher um terno marrom ou de outro tom que lembrasse madeira. Escolheu o tradicional preto. Os sapatos pretos de couro oriundo de algum lugar da Europa, coisas sobre as quais se diria “é chique!”. A gravata era de um cinza claro vulgar. Suas roupas eram tão monótonas quanto sua existência.
Olhou-se diante do espelho e gostou de ver tamanha elegância. Que não se confunda elegância com graça ou beleza, eram vestes apenas elegantes. Gostou tanto que preferiu sair já vestido com a roupa do espetáculo.
Em meio àquela admiração tola à própria elegância não percebeu que havia perdido a carta há algumas horas - tanto que a carta desfez-se após um tempo junto à rua molhada. Estava novamente diante daquela avenida que mudaria seu destino.
***
A água que a pouco caíra não fez diferença. A pressa incontrolável do suicida não estava, como nunca esteve, sob seu controle. Acostumara-se a esperar pelo fechamento do sinal para fazer a travessia. Mas, era dia do grande plano. Era o grande dia! A pressão acabou tomando a decisão, por quantos segundos? Quem saberá?
Não viu carro algum passando. Resolveu atravessar com o sinal abertos - para os carros. Sua sede de chegar ao outro lado era maior que sua atenção para o que estava fazendo. A última coisa a que prestou atenção foi o outro lado da rua.
Um carro veio a toda velocidade. Seu corpo virou-se de modo que, antes de bater a cabeça no veiculo e apagar, pode apenas ver a imagem da outra margem de concreto girar noventa graus. O carro acertou suas pernas - o que fez seu corpo cair de lado como uma garrafa de plástico com água apenas no fundo.
Conquanto tratar-se de um relato, por completo real, sou única testemunha: a carta (que continha todo o plano). Desfiz-me naquela rua molhada. Ainda assim, em pedaços, fui capaz de ver meu criador tornar-se inanimado como eu.
Quanto a meu criador? Decepcionante seu fim, não? Se pudesse, matar-se-ia novamente.
a IV parte é a minha preferida até então *.*
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